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Prosa Poética, no programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: 'Eu sozinho'

Por Mary Arantes, 04/06/2020 às 16:13
atualizado em: 04/06/2020 às 16:24

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Foto: Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal
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A cada 23 minutos no Brasil, um jovem negro é assassinado. Em meio à violência racial, mundial, o Prosa Poética desta quinta-feira dá o lugar de fala a Luiz Cláudio Silva, querido amigo e estilista maiúsculo.

“Quando eu era criança, meu olhar nunca foi de carinho por mim, não me enxergava em nenhum espaço visível.

Nem mesmo na TV, nos desenhos animados, não havia nenhum personagem com a minha cara.

Odiava o Sítio do Pica-Pau Amarelo, porque na escola era eu o saci-pererê.

E quem quer ser o saci? “Espírito ruim” dizia o tio Barnabé...

Das novelas, que neste país já tiveram seus dias de glória, também não gostava.

Quem parecia comigo eram as empregadas, o porteiro ou o pivete sem família...

Nenhuma imagem positiva existia, para que nela eu pudesse me enxergar.

Ainda bem pequeno, lembro de um gesto da minha mãe.

Costumava apertar meu nariz com o do meu irmão e dizia que era massagem, para que eles ficassem mais finos...

Não a culpo por isto, minha mãe é mais uma vítima de como o mundo enxerga as pessoas negras.

Fomos crescendo e os ensinamentos dela ficaram diferenciados.

Nunca nos deixava sujos, mal vestidos, para que não fôssemos confundidos com um marginal.

Quando pensei em fazer minha primeira tatuagem ela lembrou, “se eu tinha noção de que, ainda, poderia ser confundido com um marginal” ...

Fiz várias tatuagens, mas a fala da minha mãe, ficou gravada na minha pele, pois sempre as faço em partes do corpo que, se preciso for, posso cobrir.

Poderia falar das inúmeras vezes em que Léo, meu companheiro, e eu, fomos apresentados como “os meninos do apartamento 03” e as pessoas se voltavam para o Léo, que é branco, para parabenizá-lo, por ele ser um ótimo estilista!

Já vivi muita coisa.

Tenho muita força.

Doloroso é saber que muitos negros desconhecem sua força e não conseguem se defender, muito menos enfrentar o que for preciso, pelos seus desejos e sonhos.

A falta de oportunidade faz enorme diferença na vida de muita gente, que poderia estudar, trabalhar, crescer e alterar o caminho de vida de uma família inteira.

Somos violentados diariamente.

Não tenho vontade de sair e frequentar lugares onde a maioria não se parece comigo, onde o negro, não tem representatividade.

No meu trabalho o tempo todo foi assim, na moda sempre foi assim...

Eu sozinho.

Enquanto estou na passarela, sendo aplaudido, pessoas que se parecem comigo ainda estão na cozinha ou na segurança do evento.

E ainda tenho que escutar sobre meu sucesso, meu êxito...

E me perguntam, “se você conseguiu, por que será que outros não conseguem”?!!!”.

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